16 de maio de 2019

Uma conversa com Chico Chico e João Mantuano

O Circuito Orelhas trouxe a Porto Alegre show da dupla formada por Chico, filho de Cassia Eller, e seu amigo e parceiro João

Música

Texto: Amanda Zulke
Entrevista: Amanda Zulke e Renata Signoretti
Fotos: Gil Tuchtenhagen

 

No último sábado, 11 de maio, Porto Alegre recebeu, pela segunda vez, Chico Chico e João Mantuano. A dupla havia estreado na capital gaúcha em 2018, com um show no bar símbolo da contracultura porto-alegrense, o Ocidente. A segunda noite por aqui se deu um ano depois, no mesmo mês, agora numa das casas de música mais efervescentes da nova cena musical da cidade, o Agulha. Convidados pelo recém-formado Circuito Orelhas, os músicos abriram uma fenda no espaço-tempo para apresentar músicas próprias e versões de clássicos do som brasileiro.

Chico Chico é Francisco Ribeiro Eller, filho de Cassia Eller e Maria Eugênia, músico e compositor carioca de 24 anos. Ao lado de João Mantuano, também músico e carioca, Chico tem construído sua trajetória na música. Amigos de infância e parceiros na banda 13.7, eles contam ter se aventurado em outros caminhos, mas hoje é com violão, poesia e voz que têm conjugado ocupação e sonhos.

Algumas horas antes de subirem ao palco, batemos um papo com Chico e João. Eles receberam a equipe de Clandestina de sorriso aberto, gestos afetuosos e uma certa timidez. Era a hora feliz do cigarro pós-passagem de som. De jeans e jaqueta, que o dia anoitecia frio, eles contaram sobre o início da parceria e adiantaram um pouco do que virá.

Primeiro, a gente queria que vocês contassem pra gente como foi o encontro de amizade e parceria de vocês. Parece que vem de longa data, da escola, é isso?

João  - É, então. Sim, a gente se conheceu na escola. Bem, eu estudava lá já e ele entrou e é isso. Ele é dois anos mais velho que eu, sou dois anos mais novo. Desde a infância sempre foi assim.

Moravam perto ou foi na escola mesmo que se conheceram?

Chico – Não, a gente não morava perto, eu morava em outro bairro.

João – Não, a gente morava no Cosme Velho.

Chico – Ah, é verdade. Mas não é daí, não. É da escola. O encontro na música mais específico foi anos depois, já no Ensino Médio. Eu tinha umas bandas, o ‘Jotinha’ também. Compartilhava amigos. E foi se estreitando a amizade, até que surgiu essa dupla assim. A dupla surgiu até depois da nossa banda juntos, que é a 13.7. Que aí por uma questão de formato, a gente começou a fazer show solo, eu e ele. E foi rolando, foi uma coisa meio natural. A gente não parou e pensou ‘pô, vamos fazer junto um bagulho e tal’. Foi meio assim que aconteceu. E tá rolando.

E a música, imagino que sempre esteve ali perto, naturalmente, por estímulos e contatos.

João e Chico - Sim, a gente sempre escutou muita música.

Chico – Isso também teve sempre, quando a gente se conheceu, de ficar escutando música, conhecendo algumas coisas. Itamar, Macalé, Sergio Sampaio.

João – E compondo, sempre. Escrevendo.

Teve algum momento-chave de parar e pensar nessa escolha de seguir na música? Do tipo, ‘é isso que eu vou fazer da vida’? Ou pensaram em negar isso?

Chico – Não. Desde que eu comecei a tocar eu já sabia que queria fazer isso. E depois quando comecei a compor deu mais vontade. Teve um momento mais ou menos definidor, que foi na faculdade, que eu tive que escolher entre realmente ficar tocando e apostar nisso, ou dar uma diminuída e tentar levar a faculdade. E eu optei por tocar.

O que tu fazia na faculdade?

Chico - Fiz Geografia na UFF. Aí teve uma hora que eu não tava conseguindo mais fazer os dois e falei, ‘cara, eu vou tocar’. Não acho que era esse o momento, mas foi um momento que eu tive que escolher, que eu falei ‘tá, então é assim que eu vou ganhar meu dinheiro agora’.

E isso foi quando?

Chico – 2013 pra 2014.

João – É, foi como eu. 2012 eu saí da escola. Na verdade não, foi antes. Eu saí da escola já indo pra música. Já não fui pra faculdade, eu até passei pra Pintura, na Faculdade de Belas Artes, mas não fui fazer. Aí fiquei dois anos num restaurante trabalhando, e nesse mesmo restaurante eu fui tocar. Ali eu já sabia que era música mesmo, mais por causa das composições. Quando eu comecei a compor já não me via fazendo mais nada, nem pintando... só compondo mesmo.

E quando começaram com a banda 13.7?

Chico - Faz dois pra três anos. A banda é só de música autoral, música nossa. E a gente tá acabando de gravar o disco. A gente acha que vai ser Chico Chico e João Mantuano e banda, sabe? E o nome do CD vai ser 13.7. A banda ainda existe, todos nós tocamos juntos, mas vai mudar um pouco o projeto. Que na verdade é a mesma coisa, porque na banda também as músicas são nossas, os arranjos são de todos nós, mas basicamente letra e música nossas, com algumas parcerias.

Nesse show vocês interpretam algumas canções de Chico Cesar, Caetano, Luiz Melodia...

Chico - Tem, tem as releituras de alguns músicos que a gente gosta, outras contemporâneas a nós, como o Posadas, e músicas nossas também.

Além desses nomes, o que vocês têm ouvido hoje em dia?

João – Eu tô no processo de gravação do meu CD solo, então tô ouvindo muito isso e as referências disso, que são múltiplas. Não necessariamente um gênero musical, mas trazer um pouco de um gênero pra outro, misturar o rock com o samba, e vice-versa, um tango num blues. Então tá bem diverso, gente com gravações ‘picas’ pra eu poder entender o que é uma boa gravação, bem feita, estética. Aí vai de Piazzola a Tom Jobim, galera que arranja pra caralho. Chico Buarque também tem várias coisas. Tô olhando mais pra esse lado. Mas há pouco eu tava ouvindo músicas mais relacionadas à composição em si, à poesia. Jards Macalé, Sergio Sampaio e Luiz Melodia.

E como é o processo de criação artística de vocês?

João - A maioria das vezes começa com alguma frase. Uma melodia. Um ritmo. Sempre começa do início (risadas). E termina no fim.

Chico – (Rindo muito) Bom pra caralho.

Vocês tocam amanhã em Floripa, né?

Chico - Isso. E depois de amanhã voltamos pro Rio.

Como é pra vocês esse lance de viajar, estar num dia aqui no Sul, no outro em uma cidade totalmente diferente?

Chico - É meio novo pra gente. Mas é legal pra caramba. A gente já tocou aqui no Ocidente (em maio de 2018, a dupla se apresentou no tradicional reduto porto-alegrense) uma vez, mas nunca parou pra conhecer a cidade.

João – Eu já fiquei preso 24 horas na rodoviária daqui. Cheguei do Uruguai, peguei um ônibus pra cá, às 3h da manhã, achei que ia parar na rodoviária e parei no aeroporto. Aí fui às 3h da manhã andando do aeroporto até a rodoviária, sozinho, com uma mochila gigantesca. E os caras falando ‘cê vai morrer’, e eu ‘vou não, vou não, tô com deus’. E aí cheguei lá, de boa, fiquei esperando até de manhã e não consegui ônibus. Aí o bendito Oscar, nosso produtor, conseguiu uma passagem de avião. Que eu tinha que voltar pro Rio, tinha compromisso. E tava mais barata que a passagem de ônibus. Fiquei então umas 27 horas por aqui. Mas aprendi bastante coisa, fiz amizade com uma galera que vive na rodoviária, tipo um moleque que parecia comigo, tranquilão, e aí fui sacar que ele morava na rua há um tempão.

Eu vi um vídeo sobre a casa que vocês dividem em Santa Tereza, uma espécie de república. Vocês seguem morando juntos?

Chico e João - Não, nos mudamos.

Escapar um pouco da correria da cidade era um dos motivos pra irem morar juntos nessa casa?

Chico – É... Não sei se pra escapar, mas pra assimilar melhor. Porque eu particularmente aprendo muito dessa sujeira da cidade.

João – E Santa Tereza já é um ambiente bucólico, né? É mais pra galera que quer isso, uma tranquilidade. E é do lado do centro, desce e vai pra lá, pô. Não é pra fugir, não, só pra morar mesmo. Morei com a minha namorada e com ele (aponta pra Chico), numa casa com várias pessoas. Mas a casa segue lá, eu que fui morar com a minha namorada e o Chico com um amigo dele.

Chico - No mesmo bairro ainda.

A receptividade que tu, Chico, deve encontrar em diferentes lugares por onde passa tem muito do amor que as pessoas têm por Cassia. Cansa ter que falar incontáveis vezes sobre a tua mãe e sobre semelhanças entre vocês?

Chico - Cansa, mas não cansa. Depende de como aborda. Mas sem grilo também.

E Porto Alegre tá sendo gentil com vocês?

Chico - Ah, fizemos coisa pra caramba ontem (risos). Fomos numa rádio. Não conhecemos mais nada. E comemos um xis coração.

João - Um xis no Cavanhas e uma pizza na Ciao.

Chico - Mas role mesmo não demos. Hoje é o dia.

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