16 de setembro de 2019

|Poética #11| Renata Correia Botelho

Nascida em Ponta Delgada, nos Açores, Renata é poeta e tradutora

Literatura

Renata Correia Botelho nasceu em 1977 e vive em Ponta Delgada, Açores. Licenciou-se em Psicologia, com pós-graduações em Tradução e em Comunicação e Cultura. Traduziu, entre outras obras, De Olhos Abertos, de Marguerite Yourcenar (Relógio D’Água, 2011). Tem 4 livros de poesia publicados: Avulsos, por causa (edição de autor, 2005; Língua Morta, 2010), Um circo no nevoeiro (Averno, 2009), small song (Averno, 2010) e Esta casa (Averno, 2013). Publicou em diversas edições coletivas, colabora com revistas literárias e com diferentes expressões artísticas. Os poemas a seguir foram extraídos dos livros Um circo no nevoeiro e small song.

 

Deus nos lírios

Sinto deus, todas as noites, nos lírios
de Monet. olham por mim,
por esta sombra incerta que morre
aos poucos comigo, cobrem
de seiva viva a escuridão da casa
e afastam os demónios
que se escondem nas frestas do sono.

pela manhã, junto as pétalas tenras
caídas no lençol, e rezo baixinho,
com os pardais, um verso branco.

 

A magnólia

Ágil, estalava a tarde, lá fora
nos passos seguros de quem não tem
temor aos versos. acabara ali

o verão selvagem dos teus olhos,
aquele lugar fundo de água
e de flores onde um cão zeloso

guarda ainda uma biblioteca
e o segredo maior da tempestade.
sem dizer uma palavra,

fui fechando atrás de mim
as alamedas de Manderley,
e saí para comprar uma magnólia.

 

Rising

Hoje é início de janeiro
mas só consigo escrevê-lo
dois meses depois: morreu
a cantora Lhasa de Sela,
li no canto do ecrã,
assim, em letra corrida,
ainda a manhã mal tinha
chegado às mãos. não era
possível ver ali uma única
palavra com sentido,
‘i was caught in a storm’
e a chuva partia-se fria
contra os olhos.
‘hitting the ground
and breaking and breaking’,
é o que acontece à alma,
em dias destes, quando janeiro
só se pode dizer em março,
sem primavera.

 

A árvore das raízes

a minha infância tem uma árvore
assombrosa. é uma bela história de amor
entre as nossas mãos pequeninas
e aqueles seus braços enormes, bravos e
loucos como o riso das mães,
que faziam abrandar o medo e a tarde.

oito, nove, dez: virávamo-nos à procura dos outros
pelo labirinto de grutas cavado nas raízes,
ao abrigo do vento e da solidão que não tardaria
a descobrir o nosso esconderijo.

ao parar, há dias, na Deslocação do Labirinto,
imaginei que talvez Vieira da Silva
tivesse sonhado a minha árvore.
ou vice-versa. dois seres mágicos do mesmo elemento
engendrando-se um ao outro nas raízes do mundo:

azuis e verdes com riscos ferozes
onde a vista se afunda para depois
nos libertar. assim é, entre o céu da memória
e a erva húmida destes dias,
a árvore da minha infância.

 

A seta

o tempo, espelho tosco com que
fintamos a morte, apontado para nós
como a lança do arqueiro;

hesita, por um instante apenas,
para depois avançar, implacável
e sem retorno, na nossa direcção.

mas a feroz verdade da seta
(a um brevíssimo suspiro do embate)
é aplacada pela memória,

um libertador bater de asas
que nos recolhe das águas
quando a tempestade nos arrasta.

***

falhámos tudo: entregámos
os livros ao sepulcro
das estantes, ao amor
 

demos um colo de horas
certas, deixámos de abrir
janelas para cheirar a noite.
 

já nada nos lembra
que o poema só se forma
no fio da navalha.

***

as mãos medindo a palmo
o desejo, esse engano

fundo e breve
que alarga a noite.

***

um seixo em cada mão e o mar
às costas. a tua ausência será

um calendário de pedras.

 

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|POÉTICA| lugar aberto para poemas e falas de poetas é uma seção assinada por Fernando Ramos, idealizador e coordenador da FestiPoa Literária e curador de literatura da Clandestina. 

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