30 de março de 2020

Em tempos de quarentena, como vive quem vive da arte?

Perguntamos a artistas e agitadores culturais, bastante afetados com a crise, o que estão fazendo durante o isolamento social

Artes Cênicas

Por Amanda Zulke
 

Eles alimentam nossa alma, provocam e ampliam nossos horizontes. Precisam do calor do público, do palco, dos aplausos, do olho no olho. Com a pandemia de Coronavírus, artistas, produtores, agentes e demais trabalhadores da cultura encontram-se apegados ao passar do tempo para retomar suas atividades. O cenário atual afeta quase todos trabalhadores, independente do setor, mas as artes e o entretenimento - áreas que clamam pela presença ou por aglomeração de pessoas - foram precocemente tocadas com as orientações de isolamento. 

Shows, espetáculos, cursos presenciais e outras atividades foram canceladas ou adiadas, impossibilitando a receita planejada. Sem poder exercer seu ofício e no aguardo de políticas públicas específicas, muitos artistas estão usando a criatividade para se manter ativos, como em lives nas redes sociais, oficinas e bate-papos online. 

Ainda que venha proporcionando maior convívio familiar (para quem não mora sozinho) e permitindo um tempo mais largo para criar, é um desafio saber dosar o tempo e driblar a ausência de contato com o público. E porque estamos separados fisicamente, mas juntos nessa rede de apoio, a Clandestina colheu alguns depoimentos de artistas e agitadores culturais para saber como estão passando esse período de reclusão social. 

Paola Kirst, cantora e compositora

“De extrema importância se informar, mas sem pirar. Criar, exercitar a mente e corpo, ler, escrever, compor. Me agarro muito no coletivo da Pedra Redonda. Somos todos artistas e um apoia o outro. Seguimos produzindo muito e agora tem sido mais ainda o momento em que lançamos os conteúdos de música para o nosso canal, para o instagram e logo teremos as playlists no spotify com tudo o que foi gravado no estúdio. Estamos nos organizando cada vez mais enquanto coletivo e eu tenho conseguido planejar o próximo disco.

Infelizmente esse momento triste que estamos todos passando está fazendo com que repensemos algumas atitudes e conceitos sobre a nossa vida e sobre a nossa relação com a noção de coletividade. Eu tenho tentado manter a saúde mental principalmente ficando longe do excesso de informação. Estou buscando formas criativas de me sustentar, como as vendas online no meu brechó Acervo Bruxo

Me conecto por vídeo com os amigos e família, buscando expressar meu amor e carinho por eles. Me disponho a ir no mercado e levar as compras para aquelas pessoas próximas mais vulneráveis. Ando tendo bastante sonhos e anotando todos. Quem sabe isso vire música?” 

Thiago Pirajira, ator, diretor e professor de teatro, integrante do Grupo Pretagô

"Para quem depende de interação social, de público, de palco, de convívio para trabalhar, este momento parece ser um pesadelo. Mas a gente pode - e deve - entender que é um momento de cuidado, de silêncio e de respeito. Esse tempo tem me feito pensar sobre o desacelerar e o cuidado mesmo, sabe? Entender que diante do capitalismo que tanto nos tira a possibilidade de parar, esse momento pode nos servir para dar atenção e dedicar a energia a nós mesmos e a quem está na nossa volta. Evidente, to falando aqui de quem pode parar, sem esquecer de quem está na margem, das pessoas as quais essas orientações não se aplicam. E sabemos muito bem que essa população tem classe e raça bem definidas. Não podemos esquecer dessas pessoas! Particularmente tive 100% dos meus trabalhos cancelados ou suspensos. É uma situação preocupante. No momento tenho tentado pensar em alternativas para sobreviver nas próximas semanas e meses. A outra preocupação é com a saúde mental, então descansar, se alimentar bem, ter alguma rotina de atividade física é importante e está entrando na agenda, mais do que nunca. Tenho tentado ficar tranquilo e para isso tenho lido as mitologias dos orixás, principalmente de Xapanã, que para o Batuque do RS é o orixá regente de 2020. Pensar o mundo a partir do sentir-mundo desse orixá nos faz refletir muito. Tenho compartilhado algumas dessas leituras no meu instagram (@pirajira). No mais é respirar, seguir as recomendações dos órgãos de saúde, ajudar as pessoas próximas, as pessoas à margem e esperar. Mais do que criar coisas para passar o tempo, acho que é o momento de vivenciar o tempo. É tempo de silêncio e respeito.”

Claudia Tajes, escritora e roteirista

“Estou na quarentena com o meu filho Theo, que também é parceiro de trabalho. Temos uma série pra roteirizar e esse isolamento forçado, o mundo lá fora em suspenso, acabou sendo a oportunidade de botar a cara nesse trabalho. Só aí já vai um bom tempo do dia, graças à deusa. Compramos elásticos pra fazer pelo menos uma hora de treino funcional caseiro, o corpo não tem culpa da ameaça que nos prende em poucos metros quadrados. Ainda sobram muitas horas pra catar um filme no streaming ou rever alguns episódios de Friends, que não perde a graça nunca. No momento estou lendo A Idade de Ouro do Brasil, de João Silvério Trevisan, mas o vício de ficar acompanhando que merda o Bolsolixo fez agora tem me prendido aos jornais mais que aos livros. Nesse instante, por exemplo, a carreata da escrotidão empresarial buzina na avenida. Se não fosse por mais nada, pelo vírus, pela responsabilidade, pela cidadania, eu seria capaz de passar o resto da minha vida em casa só porque eles nos querem na rua.”

Alice Castiel Ruas, produtora cultural, idealizadora do Projeto Concha 

“No geral tenho aproveitado o privilégio absurdo de conseguir estar em casa para viver o tempo das coisas que normalmente o trabalho intenso não permite. Cozinhar, comer quando se tem fome, dormir quando se tem sono. Organizei minha estante de livros por gêneros (mantém a mente funcionando) e reencontrei Histórias de Cronópios e de Famas do Cortázar, uma leitura com várias ‘instruções’ para dias como esses. Tem uma poeta mineira que fala muito sobre as miudezas da casa, que é a Ana Martins Marques. Conheçam! Ela descreve os interiores com a mesma delicadeza que Manoel de Barros escreve a natureza. Dá para ler os dois!

E agora tá bombando as lives musicais - Vi o show inteiro do Rastilho, disco novo do Kiko Dinucci, e foi emocionante. Agora mesmo tava vendo a Luê, cantora paraense no festival Fico em Casa BR que vai até dia 27. Também vi o clipe novo da Cristal, que junto do Zudzilla e da B.art são artistas que tão despontando no rap do sul e é muito foda! Incrível como a música emociona em todos os formatos.”

Diones Camargo, dramaturgo e roteirista

“Hoje (sexta-feira, 27/03) completei exatamente duas semanas de reclusão voluntária. Como moro sozinho há alguns anos, minha rotina não mudou muito nesses 14 dias. E apesar de ter notado um pequeno aumento da ansiedade e uma certa dispersão, continuo trabalhando nos projetos pessoais e levando-os a cabo com o auxílio de listas de atividades diárias a serem cumpridas – listas essas que atualizo diariamente logo que acordo. Dentre esses projetos, talvez o mais importante seja a publicação do livro da peça “A Mulher Arrastada”, o qual será lançado nos próximos meses pela editora Cobogó do Rio de Janeiro. Contudo, a pior parte da quarentena está sendo contornar a imensa saudade que sinto do meu sobrinho Arthur, o Tutui, que em breve completará 5 anos e quem visito toda semana. Para amenizar, nos falamos várias vezes ao dia e em todas faço questão de lhe explicar – da melhor maneira possível – a situação delicada que estamos vivendo. E para compensar a ausência física, compartilhamos longas conversas por vídeo, entremeadas por partidas de jogos online pelo celular repletas de gargalhadas e palavras de afeto.” 

Tiago Flores, maestro da Orquestra da Ulbra

"Coisas que estou fazendo: aulas de Pilates online e assistindo vários vídeos de orquestras no Youtube e Netflix. Da Orquestra de Câmara da Ulbra, indico ‘PIAZZOLLA: Concerto para bandoneon e violão’ e ‘MOZART: Sinfonia nº 29 K. 201’, ambos disponíveis no Youtube.” 

Carol Bensimon, escritora e tradutora 

"Meu dia a dia na quarentena não tem sido muito diferente do que sempre foi. Moro há menos de dois anos em Mendocino, na Califórnia, um lugar com uma população de cerca de mil habitantes. Um certo nível de 'isolamento social' já fazia parte da rotina do lugar, formado por propriedade rurais bem afastadas umas das outras. Tenho andado bem produtiva, apesar de às vezes me sentir paralisada pelo horror da situação. Ajuda estar escrevendo textos para os quais tenho prazo (colaborações com revistas brasileiras). Também ministro uma oficina online sobre criação de romances desde maio do ano passado, e continuo atendendo os alunos, lendo e comentando suas produções escritas. Além disso, depois de um longa fase de pesquisa e leitura, comecei a escrever um novo romance."

Ronald Augusto, escritor e professor de literatura 

"Na quarentena, eu e Denise estamos nos dedicando a cuidar da Martina, nossa filha de 10 meses. Nos intervalos, quase raros, estou finalizando a leitura de Crítica da Razão Negra, de Achille Mbembe e nas primeiras páginas de Racismo Recreativo, de Adilson Moreira, obras que deixo como recomendação de leitura. Por fim, estou organizando algumas oficinas e cursos remotos de literatura e poesia. Os interessados começaram a aparecer. Estamos aqui à espera de todos e todas. Bom confinamento!"

Jorge Furtado, cineasta

"Estou trabalhando como sempre, minha rotina mudou, claro, mas sigo escrevendo e lendo grande parte do dia, em casa. Também tenho aproveitado o tempo para compartilhar informações nas redes sociais. Para quem está entediado em casa - e é absolutamente fundamental ficar em casa o máximo possível nas próximas duas semanas - a melhor sugestão é engajar-se num projeto, começar algo novo que você não poderia fazer em tempos normais: estudar uma língua, escrever um livro, ler grandes romances. Uma sugestão de site que sempre garante algumas horas diversão e aprendizado: a hemeroteca da Biblioteca Nacional, com quase todos os jornais e revistas brasileiros que já não circulam. Tem ferramentas de busca e navegação muito boas! Experimente: https://bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital/”.

Paula Finn, artista de dança

“Uma forma que eu tô lidando para continuar pensando arte é pensar que todas as coisas tão passando por um período de ressignificação, sabe? O que é sociedade, o que é coletivo, individual, o que é solidariedade, o que é tempo. A noção de tempo tá completamente em outro lugar de produtividade também. Eu sinto que a gente tá tendo a possibilidade de ressignificar essas coisas… Que nem sempre ficar fazendo um monte de coisas é produtividade. Sobre escolhas, sobre presença, sobre o agora. 

Na área da dança, tenho pensado o que realmente faz sentido agora, e eu acho que a gente que estuda o corpo carrega uma sabedoria muito especial de se comunicar com o corpo, entender o corpo como uma casa, não como máquina. Acho que a coisa mais valorosa que a gente pode fazer como artista do corpo é trazer um pouco desse sensível para as pessoas, em formato de autonomia. As aulas são muito importantes nesse momento, porque é vivência, são as pessoas se conectando com o próprio corpo. Eu desenvolvi um projeto chamado “Pílulas”, que são áudios para que cada um tenha um momento de consciência corporal, propriocepção. Tá sendo muito legal, eu tô tendo retorno tanto de palavras, de pessoas que disseram que isso tá fazendo a diferença na quarentena delas, quanto alguns retornos financeiros. Eu acho que na parte financeira a gente tá junto de muitos outros profissionais autônomos que foi estagnada completamente a entrada de dinheiro. Então cabe a gente se entender com profissional autônomo e exigir o que a gente tem direito do governo. Que o governo arque com a consequência de paralisar o mercado.

Tenho pensado que a dança pode tá junto com todo mundo, porque afinal todo mundo tem um corpo. Mas em relação ao artista, não só da dança especificamente, mas sobre o sensível, sobre a abertura do sensível, tão importante: a imaginação, o que nos faz viajar, então essa atividade que as pessoas tão fazendo de recomendar álbuns, abrir espetáculos online pra pessoas assistirem, realizar performances nas sacadas, tudo isso é muito importante para abrir o sensível e a gente conseguir fugir para outro lugar mesmo estando dentro de casa. Fazer a quarentena ter outra cor. Os artistas sempre foram responsáveis por transformar a realidade, por fazer esquecer da dor ou lembrar da dor, enfim, o onírico… eu acho que a arte continua tendo esse papel, desde sempre e para sempre, então, se cada profissão tem um papel social, esse é o papel da arte. Nossa função continua existindo mesmo que a gente não tenha um teatro. Estamos juntos, nos reinventando.”

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